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Sufismo Universal
Hallaj

PRÓLOGO

 

"Quando um juiz iníquo sustenta a pluma, um Mansur (Hallaj) deve morrer no patíbulo. Quando a autoridade passa para mãos dementes, os profetas estão destinados a morrer."

(Rumi, Mathnavi 2, 23, 13-14)

Bem conhecido no Ocidente pelos trabalhos de Louis Massignon, que dele fez o tema central de seus estudos sobre o Islã, Hallaj é sem dúvida um dos cúmes do sufismo e da poesia mística de todos os tempos.

Personagem extremamente controvertida, foi para uns - inclusive alguns mestres sufis - um charlatão, embromador e desequilibrado; para outros, um místico amante que vivia em contínua intimidade com Deus. A figura de Hallaj nos remete ao problema, especialmente permanente nas três tradições abrahâmicas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), do confrotamento entre a vivência espiritual interior e a autoridade oficial encarregada de velar pela ortodoxia ou, dito em outros termos, ao conflito entre o aspecto esotérico e o exotérico de cada tradição.

 

 

 

Ó, TODO DO MEU TODO (Versão Gnóstica)

 

Eis-me aqui, eis-me aqui, ó, meu segredo, ó, minha confidência.

Eis-me aqui, eis-me aqui, ó, meu fim, ó, meu sentido.

Chamo-te! Não... és Tu quem me chamas para Ti:

Como te haveria falado, a Ti, se Tu não me houvesses falado a mim?

O essência da essência da minha existência, ó termo do meu desígnio:

Tu que me fazes falar, Tu, minhas manifestações, Tu, meus pestanejares...

 

Ó, todo do meu todo! Ó, meu ouvido, ó, minha visão!

Ó, minha totalidade, minha composição e minhas partes!

Ó, todo do meu todo: todo de toda coisa, enigma equívoco,

Obscureço o Todo do Teu todo ao querer te expressar!

 

Ó, Tu, de quem meu espírito estava suspenso,

Já ao morrer de êxtase! ah, continua sendo Tua prenda a minha desdita...

 

Ó, Supremo objeto que eu solicito e espero,

Ó, meu hóspede, ó alento do meu espírito:

Ó, minha vida, neste mundo e no outro

Seja o meu coração o Teu resgate,

Ó, meu ouvido, ó, minha visão!

             

Por que tanta demora, em meu retiro tão distante?

Ah, ainda que para meus olhos te escondas no Invisível,

Meu coração já te contempla, desde o meu afastamento:

Sim, desde o meu exílio...

 

 

 

DIWÃ

 

 

1

 

Eis-me aqui, aqui estou, oh, meu segredo e confidência!

Eis-me aqui, aqui estou, oh, meu objetivo e meu sentido!

Invoco-te? Não! És Tu quem a Ti me chama!

Como poderia dizer "és Tu" se antes Tu não me houvesses sussurrado "sou Eu"?

Oh, essência da essência da minha existência,

Oh, meta e fim dos meus desvelos!

Oh, Tu, que és minha fala, minhas palavras e balbucios!

Oh, todo de meu todo, oh Tu, que és meu ouvido e minha vista!

Oh, minha totalidade, minha composição e minhas partes!

Oh, todo de meu todo!

Mas o todo de um todo é um mistério,

e o todo de meu todo obscureço ao expressá-lo.

Oh, Tu, de quem meu espírito se encontrava suspenso,

na agonia do êxtase,

convertido agora em prenda de minha tristeza!

Tenho me aproximado, mas meu temor me afasta,

e me estremeço com um desejo que se aferra a minhas entranhas.

Que farei, Senhor, com este Amante de que estou enamorado?

Impotentes ante a enfermidade, os médicos me dizem:

“Cura-te Dele mediante Ele”.

Mas eu digo: “Pode-se curar um mal com o mesmo mal?”

Meu amor por meu Senhor me minou e me consumiu,

mas como poderia queixar-me a meu Senhor de meu Senhor?

O entrevejo, é verdade, e meu coração O conhece,

mas nada pode expressá-Lo senão o pestanejar dos meus olhos.

Ah! Desdita de meu espírito por meu próprio espírito,

ai aflição que sofro por mim mesmo,

eu sou a origem do meu próprio infortúnio...

Qual náufrago, do qual somente despontam os dedos,

peço ajuda, perdido no mar imenso.

Ninguém sabe o que ocorreu, senão Aquele que em meu coração se alberga.

Ele sabe bem qual é meu mal, e de sua vontade depende

que eu morra e volte de novo à vida.

Oh, suprema demanda e esperança, oh meu hóspede!

Oh, vida de meu espírito, minha fé e minha parte neste mundo!

Diz-me: “Eu te hei resgatado”.

Oh, meu ouvido e minha vista!

Até quando tanta espera, até onde tanta distância?

Ainda que no invisível te ocultes a meus olhos,

meu coração observa tua saída, na distância, ao longe.

 

 

2

 

Para a ciência há vocações, para a fé, progressos;

e para a ciência, como para os sábios, experiências.

A ciência, pois, são duas ciências, a que se rechaça e a que se adquire,

e o mar, dois mares, aprazível um, perigoso o outro;

e o tempo, dois dias, fausto um, infausto outro; e o gênero humano,

dois destinos, abastado um, despossuído o outro.

Recolhe, pois, em teu coração, o que te diz um testemunho probo,

e considera-o em teu entendimento, pois o discernimento é um dom.

Quanto a mim, escalei um cimo sem apoiar um pé, cume para outros,

que não a mim, reserva seus perigos.

E cruzei um oceano, sem que meus pés o sondeassem;

meu espírito o atravessou, meu coração o degustou.

De pérolas está feita a grossa areia de seu fundo,

inacessível para as mãos, mas ao alcance do pensamento.

Sem abrir a boca me saciei dele, água que outras bocas já beberam;

a sede de meu espírito se remonta muito distante, quando meu corpo

nela se embebeu antes de ser formado.

Ainda sendo órfão, tenho um Pai ao qual recorro, e sofrerá meu coração,

enquanto durar minha vida, ao não estar [Ele] ao alcance de minha vista.

Ainda sendo cego, sou vidente, ainda que simples de espírito, sagaz;

expressões que bem poderiam inverter-se.

Os corações audaciosos sabem o que eu sei, e são meus companheiros,

pois tem companheiros quem está dotado de virtudes.

Conheceram-se suas almas na origem dos tempos, logo brilharam como o sol,

enquanto o tempo, como um sendeiro, se fundia na sombra da montanha.

 

 

3

 

Oh, ponto de visão, de onde parte meu olhar, lugar de onde nasce minha inspiração!

Oh, conjunto do todo, mais querido para mim que qualquer parte de mim mesmo!

Compadece-te daquele cujo coração está preso entre as garras da ave;

enamorado, apaixonado, inflamado, fugi de um deserto a outro;

errante, perdido o rumo, suas idéias vagam como o resplendor

que desenha o relâmpago no céu,

ou como breve e tênue conjectura projetada na sombra do futuro,

no oceano do pensamento, onde a arrasta a Graça da Onipotência Divina.

 

 

4

 

É o recolhimento, depois o silêncio;

depois a afasia e o conhecimento.

Depois o descobrimento, depois a desnudez.

E é a argila, depois o fogo; depois a claridade e o frio;

depois a sombra, depois o sol.

E é o pedregal, depois a planície; depois o deserto e o rio;

depois a enchente, depois o esgotamento.

E é a ebriedade, depois a desilusão;

depois o desejo e a aproximação;

depois a confluência, depois a alegria.

E é depois o abraço, depois a distensão;

depois a desaparição e a separação;

depois a união, depois a calcinação.

E é a ânsia, depois a recordação;

depois a atração e a conformação;

depois a aparição, depois a investidura.

Palavras compreensíveis tão só por aqueles que sabem

que este mundo não vale um centavo.

E [há] vozes atrás da porta, mas as conversações dos homens

se ensurdecem qual murmúrios quando alguém se aproxima.

E a última idéia que se apresenta ao fiel,

ao chegar à fronteira, é “meu lote” e “meu eu”,

pois escravas de suas inclinações são as criaturas,

e a verdade sobre o Verídico, quando se Lhe constata,

é a santidade.

 

 

5

 

Quem, havendo recebido confidências,

divulgou o que mantinham oculto

e não voltou para sua casa, é somente um embusteiro.

Se as almas proclamassem o que sabem em segredo,

e tudo o que turba sua razão, que grande perda seria!

Ao que viola o segredo de seu Mestre e Senhor

nunca se lhe confiam mais segredos,

castigo recebe por sua negligência e se o exila,

sem companhia, condenado ao isolamento.

Seus vizinhos, receosos, se afastam daquele que viram “exumar” os segredos.

Quem recebeu um segredo e o divulga,

esse, como eu, passa por néscio.

Eles, os Iniciados, feitos para a disciplina do arcano,

não suportam que se falte ao pudor.

Em sua reuniões não toleram indiscretos,

não gostam que, onde haja um véu, se o afaste;

zelosos de seus mistérios, não admitem convidados.

Longe de vós sua glória, longe de vós e vossos atos!

Por isso, de hoje em diante e para sempre,

mostrai por eles reverência.

 

 

6

 

Condôo-me pelas almas cujo testemunho vai até o mais além,

para reunir-se com o Testemunho do Eterno.

Condôo-me pelos corações, tanto tempo banhados em vão

pelas nuvens da revelação, nas quais se mistura como oceanos a sabedoria.

Condôo-me pela Palavra de Deus; desde que ela morreu,

sua recordação não é nada em nossa imaginação.

Condôo-me pelas exposições ante as quais

se emudecem os discursos da dialética.

Condôo-me pelas alusões convergentes

insinuadas pelas inteligências,

das quais nada subsiste, senão ruínas.

Condôo-me, em nome de teu amor, pelas virtudes do grupo,

cujas cavalgaduras foram adestradas na obediência.

Todos eles passaram, sem deixar vestígio nem pegada;

passaram como a tribo de 'Ad e a chorada cidade de Iram.

E atrás deles, a multidão abandonada vaga errante,

mais cega que o gado, mais cega inclusive que um

rebanho de camelos.

 

 

7

 

Minha mirada, com o olho do saber,

Esclareceu o segredo puro de minha meditação.

Uma chispa brotou em minha consciência,

Mais sutil que qualquer concepção imaginável.

Mergulhei na onda de minha reflexão,

Deslizando-me como uma flecha.

Meu coração revolvia com as plumas do desejo,

Suspenso nas asas de minha aspiração,

Subindo até Aquele cujo nome,

Quando me perguntam,

Escondo sob enigmas, sem nomeá-Lo.

Finalmente, ultrapassado todo limite,

Vaguei pelas planícies da Proximidade,

E, olhando então no espelho da água,

Não puder ver senão traços do meu rosto.

Avancei até Ele, para oferecer minha submissão,

Levando a capitulação em minhas mãos.

E o amor já havia gravado sua marca em meu coração,

Com o ferro ardente do desejo.

E a intuição de meu próprio ser me abandonou,

E me aproximei tanto, que até meu nome esqueci...

 

 

8

 

Não há, entre meu Deus e eu, explicação, demonstração

ou milagre que possa convencer-me.

Eis aqui a explicitação transfiguradora

dos fogos divinos, ardendo em mim,

irisando como pérola irrecusável.

Sua é a prova, está Nele e é Dele e para Ele:

a Testemunha mesma do real formulado como revelação.

Sua é a prova, está Nele e é Dele e para Ele;

em verdade, é a Ele a quem temos encontrado,

como ciência e demonstração.

Que não se deduza ao Criador de Sua obra criada,

pois todos os seres contingentes não atestam

nada mais que o tempo.

Esta é minha existência, minha confissão e minha convicção,

esta é a unificação de minha confissão de fé e minha crença.

Assim se expressam aqueles que Ele isola em si mesmo,

dotando-os com os dons da sabedoria,

em público e em segredo.

Esta é a existencialização que consuma aos que Ele extasia,

filhos da unificação, companheiros e amigos.

 

 

9

 

Nadando sem cessar nos mares do amor,

Subia e baixava com as ondas.

Tão logo a onda me sustentava, tão logo me afundava.

Finalmente, o amor me levou aonde não há mais margens.

Então gritei: “Ó, Tu, cujo Nome não me atrevo a pronunciar,

Amor que seria incapaz de atraiçoar,

Evite minha alma que sejas juiz injusto,

Pois não é isso o que estipula nosso pacto!”

 

 

10

 

Unifica-me, ó, Único,

Mediante a unificação da Verdade,

Num ato a que nenhum caminho serve de caminho.

Eu sou a Verdade,

E, pois, a Verdade é Verdade para a Verdade,

Que nossa separação se desvaneça.

Brilhantes claridades se iluminam

Cintilando com o resplendor do relâmpago!

 

 

11

 

Assombro-me tanto de Ti como de mim, oh anelo do meu desejo!

Aproximaste-me tanto a Ti, que acreditei que teu “Eu” fosse meu “eu”.

Logo Te eclipsaste , no êxtase, até que, em Ti,

me livraste de mim mesmo.

Oh dita nesta vida, oh descanso na sepultura!

Não há para mim júbilo sem Ti, pois és Tu meu temor e confiança.

Nos jardins de Teus emblemas está contida toda ciência

e se ainda me resta algum desejo, Tu és tudo o que eu desejo.

 

 

12

 

Foi-te revelado um segredo que te esteve oculto por longo tempo;

se levanta uma aurora, e és tu quem a obscurece.

Velas a teu coração o íntimo de seu mistério;

Se não fosse por ti, teu coração não estaria selado.

13

É Deus quem provoca o êxtase divino, ainda que

a sagacidade dos mestres não o entenda.

O êxtase é incitação, mirada que cresce e arde nas almas.

Quando Deus deste modo vem a morar na consciência, esta,

redobrada em sua agudeza, permite aos videntes observar três fases:

a da consciência ainda exterior à essência do êxtase;

a da expectativa no assombro;

a da união no cimo da consciência.

E assim se volta para um Rosto que lhe substrai com sua mirada

a qualquer outra coisa.

 

 

 

 


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