صوفیگری
AL-FARID
Al-Farid (1181-1235)
Considerado o maior poeta místico da língua árabe, Al-Farid, que viveu no Cairo, desenvolveu em sua poesia a doutrina do Logos, que foi magistralmente tratada por seu contemporâneo, Ibn Arabi. Essa concepção, bem como seu estilo apaixonado (levou ao mais alto grau a poesia da embriaguez), valeu-lhe as críticas dos juristas e dos muçulmanos ortodoxos.
No dizer dos seus amigos, Al-Farid ditava seus versos ao sair de um longo transe extático, que podia deixá-lo como morto durante vários dias. Isso nos autoriza pensar que, por trás do poeta de expressão convencional e rebuscada, escondia-se o homem “inspirado” e profundamente místico que ele foi.
Sua obra-prima é o grande poema ‘Ta-iya’, ao qual os sufistas chegaram a ponto de atribuir virtudes mágicas.
ATTAR
Attar, Farid Al-Din (1120/1140? - 1200/1230?)
A vida do grande poeta persa que foi Attar permanece um profundo mistério. Sabemos que nasceu em Nishappur, na província de Khorassã, entre 1120 e 1140, segundo os biográfos, e que morreu entre 1200 e 1230 d.C., com a idade de pelo menos 80 anos e, no máximo, 114 anos! Herdeiro do florescente comércio de perfumes, ungüentos e especiarias de seu pai, Farid al-Din inspirou-se nele para se tornar Attar, que significa “aquele que faz o comércio de perfumes”.
Diversas lendas circulam a respeito das circunstâncias de sua conversão, entre as quais a seguinte: “um dia em que Attar cuidava de seus doentes, um mendigo parou diante de sua lojinha e lhe pediu uma esmola. Nada recebendo, o mendigo fez a Attar ver que ele também morreria e perguntou-lhe de que maneira isso ocorreria. “Como tu”, replicou Attar, “mas, diz-me agora, como morrerás?”. “Assim”, respondeu o mendigo, que se estendeu no chão e morreu ali mesmo. Depois desse incidente, Attar teria renunciado a todos os seus bens para se consagrar unicamente à busca mística. Mas parece mais provável – independente da veracidade dessa lenda, Attar certamente viveu alguma experiência decisiva – que ele nunca abandonou o comércio por causa da vida religiosa e de seus trabalhos literários, pois era costume entre os sufistas exercer uma profissão.
Entre as personalidades eminentes que influenciaram Attar e lhe inspiraram a obra, citemos Nadj al-DinKubra, grande santo do século VI da Hégira, fundador de uma confraria e de um mosteiro, escritor, intelectual e contemplativo (é a essa confraria que pertencia o pai de Rumi); seu mestre direto, Madj al-DinBaghdadi, ele próprio discípulo de Kubra, médico e teólogo a quem Attar certamente deveu seus conhecimentos médicos (a cultura de Attar era muito vasta e heteróclita, visto que abrangia domínios tão diversos como quanto o Corão, a história do Islã e das outras religiões, a literatura, a filosofia, a música, a astronomia, etc.). Mencionemos igualmente o encontro com o jovem Djalal al-Rumi, em quem Attar discerniu imediatamente o grande poeta que ele iria se tornar. Rumi escreverá mais tarde: “Attar foi a alma (do misticismo personificado) e Sanai foi seus olhos: eu não faço nada mais do que seguir-lhes as pegadas” (uma geração antes de Attar, Sanai foi o primeiro poeta místico persa).
Muitos livros foram, um tanto apressadamente, atribuídos a Attar, pseudônimo que serviu a numerosos autores mais ou menos inspirados. Dentre doze livros considerados autênticos, citamos cinco:
- “Memorial dos Santos” (‘Tadhkirat al-auliya’), obra em prosa sobre as vidas, palavras e gestos de 72 santos, dos quais muitos episódios inspiraram suas obras poéticas, em particular o “Livro Divino”.
- “O Livro Divino” (‘Ilahi-nama’), longo poema sobre o despojamento e a renúncia da alma aos desejos terrestres.
- “O Livro dos Segredos” (‘Asrar-nama’), tratado em doze partes sobre noções e pontos de doutrina Sufi.
- “O Livro da Provação” (‘Musibat-nama’), que conta em quarenta capítulos a longa peregrinação do verdadeiro “homem de Deus” que interroga todo ser criado sobre a via a seguir para atingir Deus.
- “A Linguagem dos Pássaros” (‘Mantiq al-Tayr’), seu mais célebre poema iniciático, que mostra o caminho da alma até o aniquilamento, o Ser Revelado.
Farid al-Din Attar está enterrado em Nishappur. Como ocorreu em relação à sua vida, as lendas fizeram de sua morte uma passagem heróica, digna de um dos maiores narradores e mestres sufis.
BAHAUDDIN NAQSHBANDI
Bahauddin Naqsh Bandi, Khwaja Muhammad (1340-1413)
Nascido em 1340, em Kasr-i-Arifã, perto de Bokhara, Bahauddin foi o fundador da ordem dervicheNaqshbandi, que se acha ligada aos chamados “Mestres da Sabedoria”. Mas deve-se ver nele sobretudo o santo que enriqueceu a tradição, introduzindo nela uma grande sabedoria prática.
Desde a mais tenra idade, Bahhauddin deu provas de dons de cura e de clarividência. Eis um exemplo de seus poderes espirituais, narrado em sua autobiografia, ‘Hayat-nama’: “Quando eu era um menino, meu pai levou-me a Samarcanda, onde visitamos os grandes chefes espirituais da cidade. Todos os dias eu participava de suas orações. Algum tempo depois, voltamos a Bokhara e nos instalamos em Kasr-i-Arifã. Foi nessa época que recebi um presente: o capuz dervixe que fora usado anteriormente pelo grande santo Azizã Ali Ramitani. Logo que coloquei esse capuz na cabeça, meu estado interior foi completamente transformado. Meu coração se encheu do amor de Deus, e a partir desse instante esse amor tem permanecido em mim aonde quer que eu vá...”.
Bahauddin Naqshbandi morreu em sua cidade natal, em 1413.
BALYANI
Balyani, Awhad Al-Din (? - 1288)
Balyani é provavelmente o autor da “Epístola sobre a Unicidade Absoluta”, que foi também, conforme as fontes, atribuída a Ibn Arabi. No livro consagrado por Louis Massignon à “paixão” de Hallaj (“A Paixão de Al Hallaj”), Balyani aparece várias vezes como discípulo de Shushatari, o que o ligaria à tariqa de Ibn Sabin.
BASRI
Basri, Hasan Al (642-728)
Nascido em Medina em 642, falecido em Basra em 728. Eminente teólogo, célebre pela eloqüência, Basri foi reconhecido por sua piedade e ascetismo. Pregava a renúncia ao mundo, seguindo nesse ponto a via dos profetas que praticavam a pobreza e a privação. É considerado o iniciador das confrarias religiosas islâmicas.
BISTAMI
Bistami, Abu Yazid Tayfur (800-857/874)
Nascido por volta de 800, falecido em 857 ou 874. Passou toda a sua vida em Bistam, no Khorassã. É um dos mais célebres místicos persas, cujo ensinamento oral foi transmitido por seu sobrinho e seus discípulos, os Tayfuris. Estes colocavam a embriaguez (sukr) acima da lucidez (sahw), do mesmo modo que Bistami considerava que nenhuma renúncia era suficientemente grande para Deus.
Levando uma vida de um ascetismo implacável, esse apaixonado de Deus comentou nos seguintes termos sua experiência da Unidade: “Pobre de mim! Como minha glória é grande!”.
DHU-L-NUN
Dhul-Nun Misri (Dhun-Nun) (796-859)
Nascido no ano 796 em Ikhmin (Alto Egito), falecido no Cairo em 859. Este contemporâneo de Muhasibi foi o primeiro teórico dos “estados” (‘ahwal’) e dos estágios (‘maqamat’). Ele teria introduzido no Sufismo a idéia da Gnose (‘ma’rifa’), definindo-a como “o conhecimento dos atributos da Unidade, sendo esta prerrogativa dos santos, daqueles que contemplam a Face de Deus em seu coração, de tal modo que Deus se revela a eles como Ele não se revela a ninguém mais no mundo”.
Iniciado na sabedoria hermética do Egito antigo, na leitura dos hieróglifos e na Alquimia (teve por mestre Jabir), Dhul-Nun deixou poemas e orações de patente inspiração.
GHAZZALI
Al-Ghazzali (Al-Gazzali, Algazel) (1058-1111)
Nasceu e morreu em Tus, no Khorassã, a leste do Irã. Em Nishapur, onde fez seus estudos, Ghazzali recebeu formação de teólogo e jurista ortodoxo que lhe permitiu ser nomeado, em 1091, diretor da Universidade Nizamiyya de Bagdá. Seu ensinamento encontrou aí o maior sucesso, tornando-se até mesmo conselheiro do califa de Bagdá e desempenhando, por isso, um papel político não desprezível no contexto das tensões religiosas da época.
Mas em 1095, no ápice de sua carreira, Ghazzali renuncia à sua cátedra e deixa Bagdá para se dirigir a diversos lugares santos do Islã, na Síria, em Meca e em Jerusalém. Aspirando uma experiência mais pessoal, não hesita em praticar a dúvida e, em particular, a questionar o uso da razão como única abertura para o conhecimento místico. Dá longas explicações a esse respeito em seu ‘al-munqidh min al-dalal’ (Erro e Libertação), onde conclui pela primazia da experiência intuitiva na abordagem mística.
Escrito dez anos depois de sua viagem (e próximo dos seus 50 anos), seu trabalho permanece um mistério no tocante às motivações que o inspiraram: trata-se de uma narrativa sincera de sua conversão, ou é um modo de dissimular o fato de que talvez tivesse que fugir de Bagdá por razões políticas? Contudo é verdade que ele retoma seu ensinamento em 1105, em Nishapur, sob o reino de Muhammad (1104-1118), que havia conseguido restabelecer uma certa ordem no império. Porém, ele não tardará em se retirar até sua morte, em 1111.
Quer suas motivações tenham sido de ordem puramente religiosa ou mais política, nem por isso Ghazzali deixa de ser menos honrado no mundo muçulmano como a “Prova do Islã”, o “Ornamento da Religião” e o maior teórico do Sufismo. Suas obras tendem a reconciliar – nos planos moral, místico e metafísico – a via Sufi e a ortodoxia islâmica.
Como escreveu A. J. Arberry: “Freqüentemente se tem feito a aproximação entre al-Ghazzali e Santo Agostinho. A conversão de Ghazzali teve para o Islã conseqüências tão importantes quanto a de Santo Agostinho para o Cristianismo. Essa importância pode ser brevemente caracterizada dizendo-se que Ghazzali conseguiu garantir no Islã um lugar oficial para a atitude mística e introspectiva ao lado do legalismo dos jurisconsultos e do intelectualismo dos dogmáticos”.
Notemos que, embora muito muçulmano pelo pensamento, Ghazzali se inspirou muito na herança dos pensadores gregos, por um lado, e nos valores cristãos, por outro, sem jamais trair sua fé. Ficou conhecido no Ocidente como Algazel e teria influenciado alguns pensadores da Idade Média latina.
Dentre os numerosos trabalhos que tratam de assuntos tão diversos quanto a ciência, a lógica, os filósofos, a religião, citaremos quatro onde concilia, em justo equilíbrio, a mística e o dogma:
- ‘al-munqidh min al-dalal’ (“Erro e Libertação”), onde afirma que o Sufismo é o melhor remédio contra o ceticismo, e que ele representa o mais alto grau da religião.
- ‘Ihya ulum al-din’ (“A Vivificação das Ciências da Fé”), vasta síntese do pensamento de Ghazzali, que estabelece a ligação entre as atividades humanas e profanas (ciências) e religiosas (culto) e o verdadeiro caminho místico.
- ‘al-Maqçal al-asna’ (“Os Nomes Divinos”), onde apresenta a invocação do nome de Alá como uma forma de deificação.
- ‘Mishkat al-anwar’ (“O Nicho das Luzes”), onde expõe sua doutrina sobre a Unidade do Ser.
HAFIZ
Hafez (Khadja Shams al-din Muhammad) (1320-1389)
Nascido em Shiraz (Chiraz) por volta de 1320, KhadjaShams al-din Muhammad, que se tornou mais tarde Hafiz (“aquele que conhece de cor o Corão”), é sem contestação uma das figuras da poesia persa que mais bem exprimiram o espírito e os sentimentos populares iranianos.
Seus poemas nos ensinam que, excetuando-se algumas breves estadias em Yadz e em Isfahan, ele nunca deixou sua cidade natal, que amava apaixonadamente. Aí fez brilhantes estudos de teologia, língua e literatura árabes, antes de ensiná-las ele mesmo numa mádrasa (escola) de Chiraz. Em 1368, data em que reuniu num diwan suas primeiras poesias, seu talento literário se torna muito apreciado em Chiraz e em outras regiões do Irã, onde príncipes mecenas lhe oferecem presentes e hospitalidade a fim de prendê-lo à corte. Morreu por volta de 1389.
Melhor que qualquer outro, Hafiz soube cultivar a arte do ghazal, uma das formas da poesia iraniana que traduz as alegrias e sofrimentos do amor, os prazeres da natureza e os mistérios do homem. Se os temas são comuns, a maneira como os tratou dá testemunho do perfeito domínio da linguagem, ao mesmo tempo musical, cheia de imagens, pura e sem artifícios (dita no contexto de uma expressão poética oriental, quase sempre bastante cuidada). Goethe não escreveu, a respeito de sua arte, que ele era a “união da expressão com o pensamento”?
Mas há em Hafiz duas personagens, o poeta bucólico e hedonista e o místico; e duas leituras da sua obra, a linguagem poética formal e a alegoria. Essa ambiguidade sobre o sentido dos textos de Hafiz, levantada no começo do século pela tradução do seu Diwan, fez entrar em contradição numerosos especialistas, segundo discriminassem uma ou outra dessas tendências. Ora, por que não admitir que o encanto de sua poesia reside precisamente nesse equilíbrio perfeito entre a imagem e o símbolo, e que ambos são a assinatura particular de Hafiz e de sua filosofia de vida, ao mesmo tempo determinista e otimista?
HALLAJ
Al-Hallaj, Husseyn Mansur (c. 858-922)
Nascido em uma pequena aldeia do sul do Irã, al-Hallaj foi muito jovem para Bagdá, onde freqüentou os meios Sufis e seguiu o ensinamento de al-Junayd. Mas bem depressa sua concepção da mística e, sobretudo, do apostolado o afastou de seus mestres, embora, como eles, respeitasse a tradição e a observação das prescrições da lei. Sentindo nascer em si a necessidade de pregar a todos os muçulmanos – e não mais a alguns privilegiados – o amor divino, a oração e a penitência, Hallaj rompe com os sufis, deixa Bagdá e percorre durante cinco anos as províncias persas.
Tendo se tornado apóstolo errante, encontra e partilha a vida de pessoas de todas as fronteiras, sábios e operários, perdendo nesse contato, para melhor penetrá-los, sua personalidade própria. Chamam-no então de Hallaj al-Asrar, “aquele que desembaraça as consciências”, cognome que permanecerá. Foi também chamado de “aquele que socorre”, “aquele que sabe”, “aquele que está perdido em Deus”.
Em 905 embarca para a Índia, depois sobe até o Turquestão e então chega aos confins da China, pregando, escrevendo e realizando prodígios em público, um privilégio do qual os sufis jamais se gabam a não ser em grupos íntimos.
Se esses milagres espetaculares e seu comportamento de profeta foram, em grande parte, responsáveis por sua desgraça nos meios sufistas, eles não são – longe disso – os motivos mais importantes de sua prisão em Bagdá e da sua condenação à morte; muito mais conseqüente ainda foi o impacto de sua teologia sobre o amor divino que ditava todo o seu comportamento e ia mais longe do que o ensino de seu antigo mestre, Junayd.
Segundo Hallaj, a união do místico em Deus aperfeiçoa, consagra e mesmo diviniza a personalidade do ser; faz dele um representante da Divindade, vivo e livre. Essa asserção o fez proclamar, diante de todos, “eu sou a Verdade” (ou “eu sou Deus”, ou “Deus fala por minha boca”), e isso foi interpretado por seus inimigos como uma escandalosa usurpação do poder supremo de Deus, um atentado à sua transcendência. Outros motivos de acusação, religiosos, jurídicos e políticos, vieram acrescentar-se ao seu processo, já pesado, e só depois de oito anos de prisão é que foi pronunciada a sentença capital.
A 27 de março de 922, aquele que dizia “Matai-me, meus fiéis companheiros, é em minha obra que está a minha vida; minha morte é (sobre) viver, e minha vida é morrer”, esse mesmo homem, foi flagelado, mutilado, pregado no patíbulo e por fim decapitado.
A lenda de sua morte conta:
“Quando o trouxeram para ser crucificado, ao ver a cruz e os pregos ele voltou-se para o povo e recitou uma oração que terminava assim”:
“Teus servos, que aí estão, que se reuniram para me fazer morrer, por zelo de sua religião e pelo desejo de obter Teu favor, perdoa-os, Senhor, e tem piedade deles; pois, na verdade, se lhes tivesses revelado aquilo que revelaste a mim, eles não teriam feito o que fizeram e, se me tivesses escondido o que lhes ocultaste, eu não teria sofrido esta tribulação. Glória a Ti, em tudo o que fazes e glória a Ti, em tudo o que queres!”.
HUJWIRI
Teórico sufi do século XI, autor do mais antigo estudo teórico sobre o sufismo em língua persa, o ‘Kashf al-mahjub’, cuja composição lembra a ‘Risala’ de al-Qushairi.
IBN ARABI
Ibn Arabi, Mohyiddin (1165-1240)
Nascido em Múrcia (Andaluzia), em 1165; falecido em Damasco em 1240. Chamado de “vivificador da religião” ou de “o maior dos mestres”, deixou uma obra considerável que dá testemunho de um espírito ao mesmo tempo sintético e profundo. Grande escritor (estudiosos situam entre 400 a 700 obras), dois de seus trabalhos são particularmente importantes: a ‘Futuhat al Makkiyah’ (“Revelações de Meca”), espécie de quadro completo das ciências esotéricas, e o ‘Fusus al-Hikam’ (literalmente “Os Engastes da Sabedoria”), também conhecido sob o título de “A Sabedoria dos Profetas” - cada um dos 27 capítulos dessa obra é dedicado a um Profeta, desde Adão, passando por Jesus até Muhammad (Maomé). É considerada seu testamento espiritual, pois é aí que se encontra a melhor exposição de toda sua doutrina do Logos e do “Homem Perfeito”.
IBN ATAILLAH
Tajud-Din Abu al-Fadl Ahmad ibn Muhammad ibn Atail-lah al-Iskandari ash-Shadhili, Ibn Ataillah de Alexandria (? - 1309)
Nasceu em Alexandria e morreu no Cairo, Egito, em 21 de novembro de 1309 (16 de Jumada Segunda de 709). Perito em em distintas ciência islâmicas, jurisconsulto maliki e sufi discípulo de Abu al-Abbas al-Mursi, por sua vez discípulo de Abu al-Hasan ash-Shadhili, o fundador da conhecida tariqa sufi com seu mesmo nome.
Autor de diversos Tratados, entre os quais 'Taj al-'Arus', 'Lata'if al-Minan', 'At-tanuir fi Isqat at-Tadbir', 'Miftah al-Falah', 'Al-Qaul al-Mujarrad fi al-Ism al-Mufrad'. No entanto, sua obra mais famosa são seus "Aforismos", conhecidos como "Os Hikam" ou como 'Al-Hikam al-'Ataiyya' - constituem a destilação em forma de aforismos do conteúdo das principais fontes escritas do Sufismo, tais como o 'Ihya 'Ulm ad-Din' de Gazzali, a 'Risala' de al-Qushairi, o 'Qut al-Qulub' de Abu Talib al-Makki, os 'Awarif' de Sohravardi, entre outros. Por isso podem ser considerados o melhor repertório de aforismos sobre educação espiritual jamais escrito. Sua profundidade e impacto espiritual é tal que grandes ulemás chegaram a dizer deles que "se a oração fosse válida recitando algo que não fosse o Corão, o seria recitando os 'Hikam' ".
Quando Ibn 'Attail-lah mostrou a seu mestre os 'Hikam', este - satisfeito e emocionado - lhe disse: "Estes aforismos contêm tudo o que há no 'Ihya e muito mais".
JILANI
al-Qadir(Abd al-Qadir al-Jilan) (1078-1116)
Nascido em Jilan, na Pérsia, em 1078, al-Qadir veio estudar em Bagdá a jurisprudência hanbalita. Tendo aderido à ordem Sufi, começou a pregar a vida de santidade e durante anos pronunciou discursos perto de uma das portas de Bagdá. Sua influência espiritual, sua autoridade e sua extraordinária eloquência atraem então ouvintes tão numerosos quão diferentes – muçulmanos, judeus, cristãos. Professor, asceta, ensinando a todos e praticando as mais altas virtudes Sufis, al-Qadir, o “Sultão dos Santos”, é o santo mais venerado e popular do mundo muçulmano.
Por ocasião de sua morte, em 1116, diversos centros Sufis reconheceram sua autoridade e muitos deles se fazem chamar de Qadiris, nome da ordem que ele fundou (Qadiriya). Numerosos escritos, sermões e orações de al-Qadir chegaram até nós; entre eles, o mais célebre, ‘al-Ghunya ti-talibi tariq al-haqq’, foi o manual de ensinamento preferido por numerosas gerações.
JUNAYD
Al-Junayd, Abu-i-Qasim (? – 910)
Aquele que foi chamado “o Sheik da Ordem”, “o Senhor do Grupo”, “o Pavão dos Pobres”, “o Sheik dos Sheiks”, e que teve como mestres Sari Saqati e al-Muhasibi, foi certamente o espírito mais original e mais intuitivo da história do Sufismo.
Devemos-lhe o ter desenvolvido e integrado na teologia a doutrina do fana, a morte do homem para si mesmo. Uma concepção que o fez dizer, a respeito do sufismo, que ele consiste “em que Deus faz morrer (o homem) para o seu eu, a fim de viver Nele”. O homem atinge, assim, o estado da aliança original concluída com Deus, quando O via no princípio “em que ele era não-existente e inconsciente de sua existência futura”.
Al-Junayd não deixou nenhuma obra integral, embora tenha marcado de modo considerável o conjunto do sufismo e seus sucessores, entre os quais Hallaj. Seu ensinamento chegou até nós indiretamente, através do ‘Kitabs’ e dos trabalhos posteriores, notadamente os de Sarraj, de Kalabadhi e de Ghazzali.
KALABADHI
Abu Bakr al-Kalabadhi (? – 995)
Viveu em Bukara (do qual Kalabad era um bairro) e aí morreu em 995.
Autor de uma obra fundamental sobre o sufismo, o ‘Kitab al-ta’aruf li-madhhab ahl al-tasawwuf’ (“Livro da Informação sobre a Doutrina dos Homens do Sufismo”), que é, com o ‘Kitab al-luma’ de Sarraj, um dos mais antigos tratados redigidos em árabe. Nele, expõe ao mesmo tempo o credo dos sufistas, reabilitando-os e mostrando seu acordo perfeito com os princípios fundamentais do Islã, e seção por seção, as doutrinas místicas do sufismo.
Seu tratado, composto de 75 capítulos, apresenta-se como segue:
- Entrada no assunto, com definição do sufismo e enumeração dos sufistas mais conhecidos.
- Cap. 5 a 30: profissão de fé conforme o ensinamento do Islã majoritário.
- Cap.31 a 51: definição dos “estágios”.
- Cap. 52 a 63: definição dos termos sufis correntemente utilizados para designar seus “estados” espirituais.
- Cap. 64 ao 75: o comportamento dos sufis e, no último capítulo, a experiência extática.
Pouco se sabe da vida de Kalabadhi, exceto o fato de que era jurista e asceta ele próprio, de tal modo sua obra parece ser o fruto de uma experiência vivida. Devemos-lhe igualmente um livro sobre as Tradições, considerado como um complemento de seu tratado, o ‘Ma’ani-l-akhbar’.
KARKHI
Ma’ruf Karkhi(? – 815) Morreu em Bagdá, em 815. Santo analfabeto, foi um dos primeiros elos da “corrente” (‘silsila’) Sufi e é considerado o fundador da escola sufista de Bagdá. Foi mestre de Sari Saqati.
KHARRAZ
Abu Sa'id al- Kharraz(? – 899)
Nasceu em Bagdá e morreu no Cairo, em 899. Foi o primeiro a tratar a idéia da “extinção” (‘fana’).
KUBRA
Nadj al-Din Kubra(1145-1221)
Nasceu em Khorassã em 1145, morreu em 1221. Fundador da confraria Kubrawiya, Kubra teve como discípulos o pai de Rumi, Baha-ud-Din Walad, e Madj al-Din Baghdadi, que se tornou mestre do grande poeta Attar.
MAOMÉ, MOHAMED, MUHAMMAD (c. 570-632): último de uma série de emissários divinos para a raça humana (portanto conhecido como “Selo dos Profetas” ['Khatmal-anbiya’]), que entregou a revelação consumada conhecida como o Corão ('Qur’an'), e cujo relacionamento com Deus fez dele o modelo da vida espiritual para os Sufis. Nascido em Meca nos finais do século sexto, é dito que Muhammad teve suas primeiras experiências de revelação por volta dos 40 anos de idade. Durante os próximos 23 anos aproximadamente, ele proferiu as palavras da sagrada escritura, largamente na forma de predicações. Após a jovem comunidade muçulmana empreender a Hégira ('Hijra'), ao papel do Profeta somou-se legislação e liderança política com ética e exemplo espiritual. Virtualmente cada aspecto dos modos de Maomé oferece uma importante indicação para os valores internos aos quais todos muçulmanos devem empenhar-se. A simplicidade de vida do Profeta e repúdio a toda ostentação e luxo fizeram dele o modelo de autonegação para os primeiros ascetas bem como para as gerações posteriores. Sua condição “não-escrevedora” (ou “iletrada”, ummi) veio simbolizar a necessidade para o indivíduo estar presente diante de Deus sem precondição, na plena realização da prioridade da iniciativa divina em todas as coisas. Os Sufis tendem para (e talvez algumas vezes fabricado) Hadiths que sugerem interesses espirituais e qualidades, como as atitudes do Profeta em relação à oração e outras práticas. As relações do Profeta com suas esposas, crianças e Companheiros também exemplificaram valores importantes, caracterizados como se fossem bondade e justiça. Mas, acima de tudo, foi a Ascensão de Muhammad que mais capturou a imaginação dos Sufis posteriores como uma imagem da experiência espiritual definitiva. Os poetas Sufis em todas as maiores linguagens literárias islamizadas desenvolveram virtualmente cada traço da vida do Profeta e relacionamentos como paradigmas de aspectos específicos do caminho espiritual, e têm cantado em louvor às suas sublimes virtudes.
MUHASIBI
Harith al-Muhasibi(781-857)
Nascido em Basra em 781, falecido em 857 em Bagdá, onde passou a maior parte da sua vida, Muhasibi, que é o primeiro autor místico cujos textos chegaram até nós, foi o precursor do pensamento Sufi. Através do hadith, ele se empenhou sobretudo em estudar a Tradição em seu valor estritamente religioso.
O caráter essencial dos seus escritos repousa na transformação interior do homem a partir do método do exame de consciência (‘Muhasaba’, o que lhe valeu seu cognome): graças ao seu discernimento, o homem verá pouco a pouco nascer em si os “estados interiores” que, sucedendo-se uns aos outros, levam à transformação de sua vontade e à renúncia de si mesmo.
Em seu ‘Kitab al-Wasaya', Muhasibi escreve: “Com todo o meu coração busquei a via da salvação e descobri, graças ao consenso dos crentes a respeito do Livro revelado por Deus, que tal via consiste em contrair o temor de Deus e realizar suas prescrições. Procurei então informar-me sobre as leis divinas e sobre as práticas do Profeta, bem como sobre o comportamento piedoso dos santos. Vi que havia, ao mesmo tempo, concordância e oposição, mas descobri que todos os homens estavam de acordo em que as prescrições divinas e as práticas do Profeta deveriam ser buscadas no meio daqueles que, conhecendo a Deus, buscavam por obter sua complacência”.
A obra-prima de Muhasibi, onde ele desenvolve seu método, é a ‘al-Ri’aya li-huquaAllah’ (“Regra de Vida em Vista da Observação dos Direitos de Deus”), e que influenciou fortemente Ghazzali.
Numa outra obra, o ‘Kitab al-Tawahhum’, ele evoca o caminho da alma que, passando terrores da morte, desemboca na visão beatífica da essência divina. Mas a obra mais original de Muhasibi continua a seu seu “Tratado sobre o Amor” (‘fasl fi’l-mahabba’).
NURI
Abul-Hussayn Ahmad Nuri (? - 907)
Representante da escola de Bagdá, discípulo de Sari Saqati, de Qassab, e de Ibn Hawari. O princípio de seu ensinamento e, de fato, o comportamento dos Nuris, seus discípulos, fundamentava-se na abnegação (‘ithar’), levando um pouco longe demais a busca do sofrimento pelo sofrimento.
Devido a suas concepções sobre o amor divino, foi denunciado perante os tribunais com vários de seus discípulos.
QAYSARI
Dawud Qaysari (? - 1350)
Nascido na Anatólia e estabelecido no Cairo, Qaysari é conhecido sobretudo por seu comentário de um dos livros mais lidos de Ibn Arabi, o ‘Fissus al-Hikam’, que ele enriqueceu com uma introdução tão completa sobre o Sufismo que é considerada hoje como uma obra independente.
QUSHAIRI
Abu'l Qasim al Qushairi (? - 1072)
Um dos primeiros teóricos do Sufismo. Devemos a Al-Qushairi o ter ele formulado, em sua versão definitiva, todo o pensamento místico Sufi, que no fim do século X já constituía um modo de vida e de pensamento bem definido.
Sua célebre Risala (Epístola aos Sufistas), escrita em 1046, que foi objeto de numerosos estudos posteriores e que inspirou diversos comentários, entre os quais o de Ansari, é uma exposição muito bem montada e completa da especulação Sufista. Apresentando na primeira parte de seu livro uma série de biografias dos maiores Mestres, Al-Qushairi estabelece em seguida a distinção fundamental entre estados e estágios, antes de mencionar os 45 estágios propriamente ditos.
Al-Qushairi escreveu numerosos outros trabalhos, entre os quais um comentário do Corão e uma monografia sobre a Ascensão do Profeta.
RUMI
Djalal al-Din Rumi (1207 - 1273)
Nascido em Balkh, no Khorassã, em setembro de 1207, o grande poeta Rumi é filho de Baha al-Din Walad, discípulo de Kubra e eminente teólogo. Este, diante do risco de uma invasão mongol, teve que deixar Balkh com sua família. Depois de uma peregrinação à Meca e de uma estadia em Nishapur (onde encontraram Attar), fixaram-se em Laranda, atual Karmã, onde casaram o jovem Rumi (1226).
Depois, convidado pelo sultão seljúcida, Walad se instalou em Konia para ensinar jurisprudência e lei corânica, posto que Rumi deveria ocupar depois, em 1240.
Nesse meio tempo, depois da morte de seu pai, sobrevinda quando ele tinha 24 anos, Rumi foi estudar em Alep, depois em Damasco, onde permaneceu por vários anos. Aí encontrou Ibn-Arabi.
Mas em novembro de 1244, de volta a Konya, houve um acontecimento que haveria de revolucionar sua vida: o encontro com aquele que se tornaria seu mestre espiritual, que teve sobre ele uma influência decisiva e que Rumi amou profundamente, Shams de Tabriz. Esse estranho dervixe errante, que teria então uns 60 anos de idade, tinha oferecido a Deus, segundo dizem, sua própria vida em troca do encontro com um de Seus santos.
Shams e Rumi permaneceram juntos até 3 de dezembro de 1247, data em que Shams desapareceu (talvez assassinado pelos discípulos de Rumi, ciumentos do ascendente que ele exercia sobre seu mestre). Inconsolável, Rumi escreveu em sua memória o Diwan-e-Shams-e Tabrizi, compilação de poemas “de amor e de luto”.
Mais tarde tendo transcendido sua dor e interiorizado esse amor que, para ele, personificava o amor divino, Rumi escreverá em seu Walad-Namah: “Embora estejamos longe dele corporalmente – sem corpo e sem alma, somos, ambos, uma única luz – se quiseres, podes vê-lo, se quiseres, podes ver-me – Eu sou ele, ele é eu, ó tu que buscas! Por que devo dizer eu ou ele, visto que ele mesmo é eu, e que eu sou ele? Sim, tudo é ele, eu estou contido nele... Visto que sou ele, que buscaria eu? Eu sou ele próprio, agora é de mim mesmo que falo. Certamente, é a mim mesmo que eu buscava”.
Depois do desaparecimento de Shams, Rumi, sempre rodeado de numerosos discípulos, fundou a confraria dos Dervixes Giradores e instituiu o Sama, a dança cósmica dos dervixes.
Rumi morreu em Konya, em 1273. Sua obra, que é lida e recitada há sete séculos em todo o Oriente muçulmano, marcou profundamente o pensamento religioso do Islã. Entre seus principais trabalhos, citemos as “Quadras” (‘Ruba’iyat’), as “Odes Místicas” (‘Diwan-e-Shams-e Tabrizi’) e, sobretudo, o ‘Mathnawi’, um vasto poema de 45 mil versos: “Anedotas, apólogos, citações do Corão, Tradições Proféticas, lendas, temas folclóricos se sucedem para compor uma verdadeira epopéia mística” (Eva de Vitray-Meyerovitch).
SHIBLI
Abu Bakr Shibli, Dulaf Ibn Jahdar (Chibli) (861 - 945)
Nasceu em Bagdá em 861 e aí morreu em 945. Ocupou uma função administrativa antes de se converter à vida mística sob a influência de Khayr Nassaj, um amigo de Junayd. Renegou Hallaj no decorrer do seu processo, negando-lhe a doutrina sobre a união substancial e explicando-se da seguinte forma: “Hallaj e eu não temos senão uma única e mesma doutrina. Mas ele a publicou, enquanto eu a escondia. Minha loucura salvou-me, ao passo que sua lucidez o perdeu”. Sua atitude poderia ser explicada pelo fato de que Hallaj teria pedido a Shibli anteriormente para que “trabalhasse para fazer com que fosse executado”.
Shibli é constantemente citado por seus versos e sentenças.
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