1
QUE FAREI EU?
Oh amigos! Oh irmãos! Que farei eu?
Se Deus me disser: “tu não és meu servo”,
que farei eu?
Se minha cabeça desconcertada inclinar-se para sempre
e se minhas lágrimas não cessarem nunca,
que farei eu?
Se no dia do juízo meu destino for o fogo,
que farei eu?
Se naquele dia jogarem-me na cara meus pecados
e se preencherem-se com lágrimas de sangue meus olhos,
que farei eu?
Se na presença de Deus não puder encontrar excusas,
que farei eu?
Se Ele não perdoar meus pecados e culpas,
que farei eu?
Meu interior está cheio de malícia;
Se o inferno me for destinado como morada,
que farei eu?
Yunus diz que sua alma está inquieta;
algum dia, quando o corpo abraçar a terra,
se encontar minha tumba muito estreita,
que farei eu?
2
SOU EU O PRIMEIRO E O ÚLTIMO
Sou eu o primeiro e o último que ajuda às almas,
sou quem dá a mão aos extraviados,
sou a esperança dos desesperados,
sou a vista dos que não vêem,
sou quem revela os mistérios inauditos,
sou o espírito que se esconde nos corações,
sou a água que cai sobre as pedras,
sou quem com um olhar detém o mundo,
sou quem sacia aos amantes,
sou o poder misterioso que nivela os montes,
sou quem criou estes céus,
sou o farol que ilumina os marés,
sou o guia dos crentes,
sou quem impõe a ordem,
sou quem escreveu os quatro livros,
sou a língua que recita o Corão,
sou o caminho que conduz à felicidade,
sou quem derrama riquezas,
sou o jardineiro de todos os jardins,
sou quem mandou Hamza ao monte Kaf,
sou quem pôs ali o ninho do Simorg,
sou quem diz estas palavras, não Yunus.
Quem duvida desta verdade peca:
sou eu o primeiro e o último.
3
Ainda que o mundo esteja impregnado de Deus,
ninguém alcança ver Seu mistério.
Se queres vê-Lo, busca-O em teu mundo,
descobrirás então que Ele não está distante.
Esta terra sobre a qual caminhas,
esta comida com que te alimentas,
se crês que são tuas, te equivocas.
O outro mundo se acha fora de minha vista,
a virtude é o que fica neste mundo.
A dor da ausência é demasiado amarga,
ninguém voltou uma vez que partiu,
mas o que vem a este vale partirá, sem remédio;
todo ser humano desta bebida tomará.
A vida é uma longa ponte
pela qual passam todos, velhos ou jovens;
pois vinde, vamos ser amigos,
a vida será mais fácil para nós,
amemos e que nos amem todos,
pois este mundo não fica para ninguém.
Se escutas e entendes as palavras de Yunus,
seguramente as aproveitarás:
este mundo não fica para ninguém.
4
O que possui a categoria dos dervixes
purifica-se, desfaz-se de todos os erros
e seu coração volve-se como prata lavrada.
É como o vento que traz o perfume de almíscar,
é como uma árvore que dá frutos,
suas folhas curam todas as enfermidades,
sob sua sombra refrescam-se os desesperados.
O lago do amor desborda-se com uma só lágrima,
em suas ribeiras brotam flores.
Todos os poetas são rouxinóis no jardim de Deus
e Yunus Emre é uma perdiz entre eles.
5
Tem piedade de mim, um só olhar,
retira-te o véu da face.
És o "quatorze do mês": em teus pomos
a lua cheia brilha.
De tua boca chegam palavras cheias de sentido.
Solta-a, que cheguem as palavras com mil indícios.
És como ensartar em coral
trinta e duas contas.
Seu valor é de pérola e sua brancura
ensombrece a pérola.
O candor de seu rosto é
afável como suaves plantas, como prato de trigo.
Tua fronte e o crescente de tuas sobrancelhas
à lua crescente graça ensinam.
As miradas de teus olhos resplandecem como tochas,
como não sucumbiria ao fogo quem te vê, tal mariposa?
O pescoço dos que amam encadeado é de amor.
Encadeados rechaçam ser livres para serem escravos.
Que parte de tua beleza deveria cantar a língua?
Espero que do mau olhado Deus te proteja.
Não poderia distinguir do cipreste tua altura,
os aros de tuas orelhas puseram fim às minhas dúvidas:
Yunus viu a Deus em seu rosto manifestar-se.
Deus em ti se faz visível, não há que afastar-te.
6
MOINHO DE PENAS DE AMOR
Pobre moinho, por que gemes?
Tenho penas e aflições.
Enamorei-me do Senhor
E por isso vou gemendo.
Chamo-me moinho de penas,
Minhas águas correm e correm
Seguindo o mandato de meu Senhor,
E eu, que ando enamorado,
Tenho penas, vou gemendo.
Sou uma árvore no bosque;
Não sou doce, nem sou amargo,
Somente um servo do Senhor,
E tenho penas, vou gemendo.
Em um monte me encontraram,
De um cimo me tiraram,
Em moinho me tornei para girar
Porque tenho penas e penas
E gemendo vou por elas.
Nos cumes me buscaram,
Nos abismos me afogaram,
Artesãos me talharam
E meus membros acoplaram.
Mas Deus outorgou-me este suspiro:
Tenho penas, vou gemendo.
Das profundezas retiro minhas águas,
Levanto para o alto e verto-as.
Olhai, irmãos, minha carga.
Tenho penas, vou gemendo.
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